Páginas

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

sábado, 28 de setembro de 2013

Regional Nordeste 5 realiza o I Congresso Maranhense de Animação Bíblica da Vida e da Pastoral


Começou ontem, dia 27, o I Congresso Maranhense de Animação Bíblica da Vida e da Pastoral promovido pela Comissão Pastoral para Animação Bíblico-Catequética do Regional NE V. A abertura se deu com a entrada  das doze Dioceses. Após uma breve apresentação, aconteceu um momento de oração partilhada por todos os presentes.
  Em seguida, foi composta a mesa de abertura do Congresso, com D. Franco Cutter, D. Enemésio Lazzaris, Pe. Décio Walker, Joana Meneses, Martha Bispo e José Roberto. Coube a D. Franco Cutter, Bispo referencial da Catequese no Regional NE V, fazer a acolhida dos participantes do Congresso.
A seguir, a Coordenadora Regional, Joana Meneses, fez a apresentação da proposta do Congresso, com seus objetivos, declarando, então, aberto oficialmente o I Congresso Maranhense de Animação Bíblica da Vida e da Pastoral.

OBS: Haverá outra matéria no final do congresso.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Pela ecoeficiência



Modelo econômico se mostrou incapaz de conciliar crescimento e superação da pobreza (Foto: Divulgação)
Marcus Eduardo de Oliveira

O modelo de crescimento econômico – via modernização tecnológica – posto em prática a partir dos anos 1950 para reconstruir as economias devastadas pela Segunda Guerra Mundial, patrocinada pela oferta de capital norte-americano (Plano Marshall) “prometeu” (mas não cumpriu) atender as mais diversificadas necessidades humanas.

Na verdade, o “produto” que nos foi (e ainda está sendo) entregue como resultado desse “modo econômico” de “administrar” o mundo é a mais completa devastação dos recursos planetários.

Desde então, esse modelo econômico se mostrou incapaz de conciliar crescimento econômico, superação da pobreza e preservação do meio ambiente.

Sequer nos “esboços” de políticas econômicas, de modo geral, se trabalha, primeiramente, com a ideia de se atingir a ecoeficiência, definida pelo Conselho Empresarial sobre Desenvolvimento Sustentável (Business Council for Sustainable Development) como “bens e serviços que satisfazem as necessidades humanas e trazem qualidade de vida, enquanto reduzem progressivamente os impactos ecológicos e o uso intensivo de recursos ao longo do ciclo de vida a um nível mais de acordo com a capacidade da Terra”.

Na prática, o preceito que norteia a ecoeficiência prima, sobremaneira, pela otimização ou redução no uso de insumos, como água, energia e materiais. Trata-se de um modelo que adapta os sistemas de produção organizacional já existentes às necessidades ambientais e de mercado, ao mesmo tempo em que torna os negócios mais inovadores e competitivos. É a iniciativa de se fazer mais e melhor com menos.

Para o êxito do conceito de ecoeficiência é de fundamental importância que a economia (atividade produtiva) e a ecologia (ciências naturais) estabeleçam entre si atitudes compatíveis.

Nesse pormenor, uma atitude compatível e sensata, entre outras, seria buscar a redução significativa do uso dos recursos por parte dos países industrializados que “abocanham” 80% de toda a produção mundial “distribuída” para apenas 20% da população mundial.

Esses 20% (1,4 bilhão de pessoas) respondem por mais de 80% do PIB e do comércio mundiais, consomem 60% dos fertilizantes artificiais, 81% dos papéis e 85% dos produtos químicos do mundo. Desnecessário dizer que também “contribuem” com mais de 85% da poluição mundial.

Uma vez que é impossível fazer com que os países pobres e suas populações (80% da humanidade, ou 5,6 bilhões de pessoas) atinjam os níveis de consumo das nações ricas, pois isso excederia a “capacidade de sustentação do planeta”, somente a redução nos padrões de produção e consumo dos países ricos permitirá que 80% da população mundial (dos países pobres) melhorem suas condições de vida.

O certo é que a continuidade desse exagerado consumo em poucas mãos nos legou até o momento a mais grave crise ambiental produzida pelo homem. O resultado é catastrófico: espécies animais e vegetais extintas em grande velocidade, refugiados ambientais que já somam 50 milhões de pessoas, desflorestamento, poluição excessiva (mais de 1,5 milhão de pessoas mortas todos os anos no mundo em decorrência dos efeitos da poluição) e aquecimento global.

Se existe uma forma de reverter esse quadro, isso passa indubitavelmente por estabelecer uma nova forma de relação (tratamento) entre o homem e o meio ambiente. Isso é a mais fidedigna forma de se atingir a ecoeficiência.

Não é mais aceitável que a humanidade continue assoberbadamente transformando recursos naturais em fonte de lucro. Quebrar e romper de uma vez por todas com esse paradigma passa pela mudança (conversão) de mentalidade ou, como gostam de dizer os filósofos, de metanóia.
*Marcus Eduardo de Oliveira é economista com especialização em Política Internacional e mestrado em Estudos da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP). É professor de economia do UNIFIEO e da FAC-FITO, em Osasco/SP. Autor dos livros 'Conversando sobre Economia' (Editora Alínea), 'Pensando como um economista' (Editora EbookBrasil) e 'Humanizando a Economia' (Editora EbookBrasil – livro eletrônico). Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br

A devastadora 'modernidade' do novo Iphone 5

Suspeita de comprar estanho que é extraído por crianças e arrasa um paraíso ambiental, Apple reage tratando usuários como otários.

Criança trabalha em mina de estanho: modernidade a custo de trabalho escravo e degradação ambiental.
Por Vinicius Gomes

Toda vez que um novo iPhone está para ser lançado, produz-se um frisson mundial. No caso do novo Iphone 5S, não foi diferente. Pessoas acamparam por semanas em frente à loja da Apple em Nova York, esperando que suas portas se abrissem. Quando isso finalmente ocorreu, foram saudadas pelos funcionários como se tivessem acabado de conquistar uma medalha de ouro nas Olimpíadas. Mas por trás de toda a fanfarra de marketing, existe uma realidade que quase nunca é acompanhada pela mídia com tanta empolgação como as filas em frente das lojas. 

O jornalista britânico George Monbiot começou a revelá-la esta semana, em seu blog. A Apple, demonstrou ele, participa de um dos crimes ambientais que melhor expõem a desigualdade das relações Norte-Sul e a irracionalidade contemporânea.

Ela provavelmente compra estanho produzido, na Indonésia, em relações sociais e de desprezo pela natureza que lembram as do século 19. Pior: convidada por ativistas a corrigir esta prática, a empresa esquiva-se – destoando inclusive de suas concorrentes. E, ao fazê-lo, usa argumentos que sugerem: trata o público e seus consumidores como se fossem incapazes de outra atitude mental além do ímpeto de consumo.

Monbiot refere-se ao uso, pelos fabricantes de celulares, do estanho extraído da ilha de Bangka, na Indonésia. O metal é indispensável para a soldagem interna dos smartphones. Cerca de 30% da produção global concentra-se na Indonésia – mais precisamente, em Bangka. O problema são as condições de extração.

O jornalista as descreve: “Uma orgia de mineração sem regras está reduzindo um sistema complexo de florestas tropicais e campos a uma paisagem pós-holocausto de areia e subsolo ácido. Dragas de estanho, nas águas costeiras, também estão varrendo os corais, os manguezais, os mariscos gigantes, a pesca e as praias usadas como ninhos pelas tartarugas”.

A cobiça pelo estanho barato não poupa nem a natureza, nem o ser humano. Monbiot prossegue: “Crianças são empregadas, em condições chocantes. Em média, um mineiro morre, em acidente de trabalho, a cada semana. A água limpa está desaparacendo. A malária espalha-se e os mosquitos proliferam nas minas abandonadas. Pequenos agricultores são removidos de suas terras”.

Estas condições desesperadoras desencadearam reação de ativistas. A organização internacional Amigos da Terra articulou o movimento. Não se trata de algo conduzido por rebeldes sem causa. A campanha reconhece que eliminar a mineração seria uma proposta inviável, por desempregar milhares de pessoas. Propõe, ao contrário, um pacto. Todo o estanho produzido em Bangka é adquirido pelas corporações que fabricam celulares. Se elas concordarem em respeitar condições sociais e ambientais decentes, a exploração de gente e da natureza não poderá prosseguir.

Sete fabricantes transnacionais abriram diálogo com a campanha: Samsung, Philips, Nokia, Sony, Blackberry, Motorola e LG. A única das grandes fabricantes a se recusar foi a Apple – também conhecida por encomendar a fabricação de seus aparelhos às indústrias de ultra-exploração do trabalho humano da Foxconn.

O mais bizarro, conta Monbiot, são os estratagemas primitivos usados pela Apple para evitar um compromisso de respeito aos direitos e à natureza. O jornalista procurou por duas vezes, nos últimos dias, o diretor de Relações Públicas da empresa. Propôs, em nome da transparência, um diálogo gravado. Sugestão negada. Na conversa reservada, relata, não obteve informação alguma, exceto uma sugestão: dirija-se a nosso site. 

Mas é lá, diverte-se Monbiot, que a Apple mais zomba da inteligência dos consumidores. A corporação informa, placidamente, que “a Ilha de Bangka, na Indonésia, é uma das principais regiões produtoras de estanho no mundo. Preocupações recentes sobre a mineração ilegal de estanho na região levaram a Apple a uma visitas de inspeção, para saber mais”. Mas a Apple não reconhece que compra o metal produzido em Bangka – provavelmente para não se comprometer com a campanha contra a exploração devastadora. O jornalista, então, pergunta: “Por que dar-se ao trabalho de uma visita de inspeção, se você não usa o estanho da ilha? E se você usa, por que não admiti-lo?”

Tudo isso sugeriria renunciar a um celular? Claro que não, diz Monbiot. Trata-se de exigir das empresas respeito a normas sociais e ambientais. Pressionadas, sete corporações transnacionais ao menos admitiram debater o tema. A Apple destoou. Quem tem respeito pelos direitos sociais e pela natureza deveria evitar os aparelhos da empresa, recomenda o jornalista.

Quem quer ir além pode, por exemplo, optar pelo Fairphone, celular produzido por empreendedores expressamente interessados em proteger direitos e ambiente. Estará disponível a partir de dezembro. Porém, mais de 15 mil unidades já foram vendidas, nos últimos meses a consumidores conscientes.
Outras Palavras, 26-09-2013.

Liberdade, liberdade!

Os muitos crimes que se cometem em toda parte em nome desse ideal fugidio da humanidade.

Por Evaldo D´Assumpção* 

Uma frase famosa, porém atribuída a personagem errada, foi pronunciada pelo embaixador brasileiro na França, diplomata Carlos Alves de Souza Filho, depois de reunião com o presidente De Gaulle, em que se discutiu a chamada “Guerra da Lagosta”, em 1962. “Le Brésil n’est pas un pays serieux“  – “O Brasil não é um país sério”, teria dito De Gaulle. Contudo não foi ele, mas o diplomata irritado com as peripécias brasileiras na questão do cobiçado fruto do mar. 

Outra paternidade – ou maternidade – errônea diz respeito à frase: “Ó Liberdade, quantos crimes cometem-se em teu nome!” Atribuída a Maria Antonieta, ao subir para a guilhotina em 16 de outubro de 1793, foi na realidade pronunciada por Manon Roland, membro do Partido Girondino e esposa do Ministro do Interior da França em 1792, depois da Revolução Francesa em 1789. Caindo em desgraça, Madame Roland foi julgada,condenada à morte e guilhotinada em 8 de novembro de 1793. Quando a charrete que a conduzia à guilhotina, na Praça da Concórdia, em Paris, passou diante da estátua da Liberdade ela exclamou a frase que ficou para a história. 

Essas duas frases pronunciadas na França e em épocas distintas, referem-se, com muita propriedade, ao Brasil de hoje. Diante das trapalhadas do STF no trato do mensalão; diante dos malabarismo de nossos legisladores e governantes para se locupletarem e em seguida escapar da tíbia mão da justiça; diante do prende e solta da polícia em suas ações contra a criminalidade; diante da miríade de situações que contemplamos estarrecidos e impotentes, não há como reafirmar as duas coisas: Tantos crimes se cometem em nome da liberdade, num pais que nada tem de sério. 

À sombra de uma fantasiosa liberdade eivada de firulas jurídicas, que favorece os bandidos e prende os honestos,que impede os pais de educar seus filhos, que restringe ações restritivas e punitivas capazes de recolocar os desviados no caminho da ética e da moral; comportamos como o mendigo que veste fraque e cartola achados no lixo, e se acredita um magnata dessa hipócrita sociedade capitalista-consumista. 

Cito exemplos singelos: cachorros transitam pela praia, ali deixando livremente seus dejetos contaminantes, e os serviços públicos de controle desse absurdo alegam não poder agir por impedimentos legais. Políticos são condenados por desvios de verbas e outros delitos, mas não perdem seus mandatos por decisões de seus pares – não seria melhor dizer comparsas?

Bandidos travestidos de reivindicadores cobrem-se de máscaras para vandalizar, quebrar e roubar, protegidos por hipócritas decisões legais que impedem a exigência de quem quiser se manifestar, ter a coragem de se identificar.  E aí está mais um nó: o anonimato tornou-se instituição nacional, permitindo a toda espécie de bandidos ser preservada de identificação, em respeito a leis fajutas, criadas exatamente para proteger os marginais.

Empresas prestadoras de serviço, como as editoras de revistas semanais, descontinuam a entrega para seus assinantes e nem sequer dão alguma satisfação pela incúria de seus departamentos de distribuição. E as telefônicas, que abusam de seus usuários, cobrando caro e prestando serviços de péssima qualdiade. Todas elas com os seus SACs (Serviço de atendimento ao cliente) funcionando a base de irritantes atendentes virtuais que nada resolvem, ou atendentes vivos que só sabem tentar impingir novos produtos. Que também não prestam.

Um país onde hospitais do interior, postos de saúde até mesmo das grandes cidades, carecem de leitos, material de curativos, medicamentos, alimentos, higiene, às vezes até água corrente e esgoto permeável, seus governantes apontam o dedo imundamente corrupto contra a classe médica, como se ela fosse a responsável pelo descalabro da saúde brasileira. E busca médicos-escravos-estrangeiros para salvar a nossa pátria amada, idolatrada. Enquanto isso, o povo ingênuo acredita e aplaude a demagógica estupidez. 

Ah! Pobre Brasil que arrota liberdade, mas vive cativo da falta de seriedade!
* Evaldo D´Assumpção é médico e escritor.

Por que o feminicídio não diminuiu depois da Maria da Penha?

Se ela (Lei Maria da Penha) funcionasse direito, seria espetacular, mas ainda assim não seria suficiente - a mudança deve ser cultural, estrutural, encarando o fato incontornável de que mulheres somos gente.

"O que mata mulheres é a misoginia, é a objetificação dos nossos corpos, a desumanização a que somos submetidas a todo instante."
Por Nádia Lapa 

Quarta-feira passada, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou os resultados de uma pesquisa sobre o número de feminicídios após a vigência da Lei Maria da Penha. O resultado assusta: 15 mulheres são mortas por dia no Brasil, uma a cada uma hora e meia. É a chamada violência de gênero, aquela perpetrada contra mulheres em razão de elas serem... mulheres.

A situação é tão grave que a CPMI de Violência Contra a Mulher previu, no relatório final, a inclusão do feminicídio como qualificadora no crime de homicídio. Muitas vezes tratados pela imprensa como "crimes passionais", 40% dos casos têm parceiros ou ex-parceiros como assassinos. A porcentagem corrobora o achado por outra pesquisa divulgada recentemente e sobre a qual falei aqui no blog, a percepção da sociedade sobre violência e assassinato de mulheres, do Instituto Patrícia Galvão. Nela, 50% dos entrevistados apontaram que o domicílio é o lugar no qual as mulheres se sentem mais inseguras. Faz todo sentido, quando se junta os resultados das duas pesquisas. Quem se sentiria confortável em casa, se o algoz mora lá?

A situação é grave e, não, não se mata por paixão, mas sim por poder, controle. "Se ela não pode ser minha, não será de mais ninguém", pensam - e agem - os criminosos. O Ipea apontou que não houve diminuição dos números de feminicídio depois da vigência da Lei Maria da Penha. Foi o suficiente para que a lei fosse criticada, como se a aplicação da mesma ocorresse nos termos previstos. 

Infelizmente não é. São recorrentes os casos em que as mulheres registraram diversas ocorrências policiais contra ex-parceiros, mas nada é feito. As medidas protetivas, que incluem a estipulação de distância mínima entre agressor e vítima, tal qual os filmes americanos, não funcionam. As casas de acolhimento não existem em número suficiente, e a mulher agredida não tem para onde ir, sendo obrigada a permanecer junto ao agressor ou procurar a família, cujo endereço o parceiro conhece bem. A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República está construindo uma casa de passagem em cada capital brasileira. Iniciativa ótima, mas como resolver o problema oferecendo apenas 20 camas para cidades com milhões de habitantes?

Um dos grandes avanços da Lei Maria da Penha é o reconhecimento de que existe violência doméstica, tema que não era sequer falado profundamente antes do advento da lei. Se ela funcionasse direito, seria espetacular, mas ainda assim não seria suficiente - a mudança deve ser cultural, estrutural, encarando o fato incontornável de que mulheres somos gente.

Um articulista do jornal Folha de S. Paulo, Hélio Schwarstman, atacou duramente a Lei, aparentemente desconhecendo o fato de que as medidas protetivas não funcionam porque "não há efetivo" para garantir a segurança das mulheres já agredidas anteriormente. Ele também culpabiliza mulheres pela própria agressão sofrida, e arremata com a desculpa de que os homens são mais fortes, por isso matam mais.

Fico pensando na própria Maria da Penha, eletrocutada e atingida por disparos de arma de fogo. Que tipo de força física é necessária para empunhar uma arma? Não arranjemos desculpas. O que mata mulheres é a misoginia, é a objetificação dos nossos corpos, a desumanização a que somos submetidas a todo instante. Uma lei, por melhor que seja, não é capaz de mudar a mentalidade e a cultura de um povo.
Carta Capital, 30-09-2013.

Destaque do dia nos principais jornais, 01/10/2013

Ter direito SOBRE O PRÓPRIO corpo sim!

Por: Binho
http://webpotiguar.files.wordpress.com/
 No dia a dia, é comum que entremos em vários tipos de discussões a respeito dos mais diversos temas. Alguns temas são polêmicos, outros nem tanto. Em uma discussão, julgo que a argumentação é o mais importante. Se o argumento for bem colocado, com o devido embasamento, considerando a verdade inerente ao assunto, ele pode ser considerado válido. Se o argumento for baseado em “achismos” ou em “ouvi falar”, aí a coisa fica meio complicada. Infelizmente, o que acontece, é que um monte de gente argumenta baseada em achismo ou no ouvi falar, ou vi na tv, ou li na Wikipédia.
A vida moderna nos trouxe uma era que podemos chamar a era da informação. Nunca foi tão fácil ter acesso a informação como nos dias atuais. Mas parece que justamente essa facilidade criou pessoas preguiçosas, que são incapazes de buscar a fundo os argumentos para suas posições, e acabam embasando suas posições de forma superficial, frutos do ouvir dizer...
Bom, dentre tantos e tantos temas em que isso acontece, um que gera sempre muita polêmica e discussão é o aborto. É sobre esse tema que pretendo discorrer nas linhas abaixo.
Vou tentar aqui elucidar um argumento que é bem recorrente e parte do lado das pessoas que são a favor. Via de regra, em discussões a favor do aborto, sempre ouvimos que a mulher tem direito a decidir sobre seu corpo.
Bom, começo dizendo que a afirmativa não é totalmente falsa; de fato, para o direito civil brasileiro a pessoa pode autogovernar-se da forma que lhe for conveniente, desde que tenha plena ciência do ato que está fazendo. O problema é que o que é gestado na mulher não faz parte do seu corpo, não é uma extensão dele e em momento algum pertence à mulher.
Comecemos pela genética. A não ser que a mulher tenha uma autofecundação, como acontece em plantas, o patrimônio genético do embrião é diferente do patrimônio genético da mãe. Isso caracteriza um novo indivíduo desde a junção dos gametas feminino e masculino, estágio inicial da vida e já vida humana. [1]
Essa questão intrigou a comunidade médico-científica por muito tempo. Como o sistema imune da mulher não ataca o feto para removê-lo e eliminá-lo, já que ele não pertence ao corpo por ser geneticamente diferente, exatamente como acontece nos casos de implantes?
Em 2012, um grupo de cientistas liderados pelo Doutor Adrian Erlebacher, publicou na Nature um estudo no qual descobriram o porquê de o sistema imune da mãe não eliminar o feto. Antes deles, muitos já buscavam essa resposta, muitos avanços foram feitos; a pesquisa em questão é citada por mim por ter descoberto de forma mais completa até agora os mecanismos pelo qual o sistema imune da mulher não rejeita o feto como sendo um intruso.
Em seu trabalho intitulado “Mechanisms of T cell tolerance towards the allogeneic fetus” (Os mecanismos de tolerância de células T em relação ao feto alogênico – Tradução livre), os pesquisadores contam que a implantação do embrião desencadeia um processo que, em última análise, inativa uma via necessária para que o sistema imunológico ataque os corpos estranhos (o feto é um corpo estranho por ser geneticamente diferente). Deste modo, as células imunes nunca são recrutadas para o local do implante e consequentemente, não podem prejudicar o desenvolvimento do feto.
Naturalmente o sistema imune atua contra os tecidos transplantados estranhos e agentes patogênicos através da produção de quimiocinas, um tipo de proteína, que é a resposta do sistema imune a um processo inflamatório local. As quimiocinas são recrutadas por várias células do sistema imune, incluindo os linfócitos T ativados. Durante a gravidez, os antígenos do feto e da placenta entram em contato com as células do sistema imune da mãe, mas não desencadeiam tal processo que geraria uma rejeição natural.
A equipe do dr. Adrian Erlebacher já havia constado em outro estudo intitulado Why isn’t the fetus rejected? (Por que o feto não é rejeitado? Tradução livre), que os linfócitos T, que tem como função atacar os tecidos estranhos, eram incapazes de fazer isso com o feto, o que os levou a criar uma hipótese de que havia algum tipo de barreira física que impediam os linfócitos T de atacarem o feto, como seria o normal.
A partir disso, concentraram seus esforços na decídua, uma estrutura que envolve o feto e a placenta. Eles descobriram que o início da gravidez faz com que os genes responsáveis pela sinalização e recrutamento das células do sistema imunológico sejam desativados dentro da decídua. Desta forma os linfócitos T não se acumulam dentro dessa estrutura e assim não atacam a placenta e o feto.
Falhas na regulação deste processo podem levar a inflamação e a acumulação de células do sistema imune dentro desta estrutura que podem conduzir a complicações durante a gestação que podem ir desde o parto pré-maturo até o aborto espontâneo.
"Esta é uma descoberta muito empolgante, pois explica o motivo pelo qual o feto não é rejeitado durante a gravidez, uma questão fundamental para a comunidade médica que tem grandes implicações na gravidez humana", revelou em comunicado de imprensa Adrian Erlebacher.
No começo do texto eu falava que um argumento válido dever ser embasado na verdade a respeito do assunto. A verdade é que o feto, desde sua concepção e implantação no útero, não é parte do corpo da mãe, e muito menos extensão dele. Atentar contra outra vida não é direito de ninguém.
Portanto, meus amigos, que a mulher tenha direito sim sobre o seu corpo, mas que respeite o outro ser que nela é gerado, pois desde o primeiro momento, todo um aparato genético e fisiológico é necessário para preservar o feto e a vida que ali já se desenvolve. Desde o primeiro momento o sistema imune da mulher reconhece aquele corpo como um corpo estranho, não próprio da mulher. Não fosse todo esse aparato de proteção, o feto seria atacado e eliminado do corpo da mulher por não pertencer a ela.



[1] Para fins de definição consideramos que desde a fecundação o que se desenvolve é vida humana. Embora existam teorias que tentam estabelecer que a vida humana começa só em estágios posteriores, ainda faltam provas conclusivas para que estas teorias sejam consideradas verdadeiras.

Cleber Nunes Kraus
Mestrando em Ecologia - UnB / Oficina de Valores

Arquivo do blog

Pesquisar este blog